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“O André tem a capacidade de nos fazer vivenciar experiências que nunca tivemos, porque é cru, é visceral, quando a narrativa o pede. E consegue, porém, ser de uma tremenda subtileza e tirar-nos o tapete, naquele momento em que julgamos que o vamos finalmente apanhar num cliché.”

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Não esperem de mim uma recensão.

Muitas já foram feitas, outras estarão por aí no prelo. Sobre Living Will, basta saber que foi publicado pela Ave Rara em 7 fascículos de 16 páginas cada; que foi imaginado e escrito por André Oliveira, com cinco números ilustrados por Joana Afonso e dois por Pedro Serpa, o 4 e o 6; e que narra a história de Will, um velho que perde o seu cão, o seu último elo à vida e gatilho de toda a trama. Os últimos dias de Will e as pontas soltas da vida que este pretende resolver dão o mote para uma obra belíssima sobre decisões e arrependimentos, sobre expectativas e desilusões, sobre pecados fatais e redenções falhadas. Em suma, uma obra belíssima sobre a vida. E André Oliveira escreve com mestria sobre os temas mundanos, como já o comprovou à saciedade em incontáveis álbuns e curtas de BD, caldo ensaístico que o André tem usado e abusado para estalar os seus ossos narrativos e estreitar parcerias com ilustradores de monta e outros que lá chegarão, haja sintonia entre talento e persistência.

Living Will, como qualquer grande obra, é sobre o seu autor e as suas vivências, mas faz-nos sentir igualmente retratados.
Quem nunca perdeu o contacto com um grande amigo de outrora? Quantos de nós não têm um Trevor na vida? Alguém que perdeu o norte e passou a viver igualmente desfasado dos outros pontos cardeais, incapaz da assumpção de culpas próprias, antes escolhendo indiscriminadamente bodes expiatórios ao seu redor? Sei bem o que isso é. Mas o André tem a capacidade de nos fazer vivenciar experiências que nunca tivemos, porque é cru, é visceral, quando a narrativa o pede. E consegue, porém, ser de uma tremenda subtileza e tirar-nos o tapete, naquele momento em que julgamos que o vamos finalmente apanhar num cliché. Não que eles não existam em Living Will: o que é a vida, o quotidiano, a mera existência, sem uma enxurrada de clichés? E eles também lá estão, mas usados de forma elegante, dentro de uma propósito narrativo sólido.
 

Living Will deve muito do seu charme ao desenho de Joana Afonso e à sua interpretação das personagens. Mesmo num registo menos dinâmico, longe daquele que marcava o clássico O Baile ou o mais recente Zahna, a expressividade e o traço inconfundível da ilustradora são uma injecção de personalidade nas criações de André Oliveira. Joana transmite emoções como poucos, e desengane-se quem pudesse pensar que o seu estilo cartunesco não poderia servir uma narrativa desta índole. Bem pelo contrário, são os esgares e sorrisos exagerados, as raivas inscritas em sobrancelhas contraídas e em indicadores espetados, e a movimentação caricatural das personagens que tornam Living Will numa obra doce e verdadeiramente humana, algo que um registo pseudo-realista nunca poderia atingir.

Dito isto, Living Will não é uma obra perfeita, longe disso. O arco narrativo do médico Terry soa algo deslocado do mundo aparentemente mais civilizado onde se desenrola a trama. Mas é na vertente artística que as maiores fraquezas e inconsistências se manifestam. O início exuberante de Joana Afonso vai-se diluindo ao longo dos números, como se a demanda de Will se começasse a tornar um fardo para a talentosa desenhadora. Os detalhes tornam-se mais esparsos, a variedade cromática de cada tom caminha para blocos mais monocórdicos, e as próprias personagens perdem elasticidade, repetindo-se em planos por demais rígidos.

A chegada de Pedro Serpa, necessária à manutenção mínima da periodicidade de série, introduz um corpo estranho. Narrador visual de primeiríssima craveira, Serpa vê-se ele próprio numa bicuda encruzilhada, num equilíbrio ténue entre o seu estilo próprio e a tentativa de manter a identidade visual que Joana Afonso tão bem conferiu à série. O resultado, longe de ser brilhante, consegue o objectivo mínimo de manter o embalo da série, sustentada pela visão de André Oliveira e pela riqueza da sua escrita. Ora escorreita e coloquial, ora poética e literária. A legendagem, com balões desenhados pelos dois ilustradores, é orgânica mas inconsistente, com as lacunas normais de uma legendagem não profissional, uma das grandes pragas da BD portuguesa. Guias excessivamente espessas, posicionamento nem sempre elegante, e uma fonte que tem o seu charme mas a que não escapa o malfadado i serifado.
 
Uma surpresa, ou talvez não, é a qualidade do texto em Inglês. Bom, muito bom até, pouco ficando a dever à usual destreza com que André Oliveira trata a língua portuguesa. E uma nota a finalizar: não escrevo tudo isto por ser amigo do André. Ele bem sabe a franqueza das nossas conversas, bem conhece o espírito crítico que trocamos. Essa será decerto uma das razões por que ambos evoluimos como autores, como argumentistas. Nem sempre adoramos, ou gostamos sequer, daquilo que o outro faz, até pelas sensibilidades que nem sempre compartilhamos. Mas há sempre respeito e percepção de qualidade. De quem domina as ferramentas, de quem conhece o meio em que trabalha. E o André fá-lo como muito poucos, pela capacidade de espraiar os temas que aborda, do humor corrosivo à ficção histórica, do “slice of life” ao profundamente íntimo.
 
Mais do que celebrar os 5 anos de publicação ou o formato da dita publicação, Living Will será sobretudo uma obra para ser lida de enfiada. Vorazmente, como as grandes obras devem ser consumidas. E várias vezes. Porque Living Will ficará, para sempre, como um testamento vivo à qualidade da BD, portuguesa ou outra. E assim fecho com um cliché. Porque eles também fazem parte da boa escrita.
 

Para mais detalhes sobre o processo criativo do André Oliveira, leiam também a entrevista dele ao Pedro Cleto para o blog As Leituras do Pedro.

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